𖥻♡:: Bumpy Purple ::♡ 𖥻01
Sinopse:
28 de Janeiro de 2018.
Houve um acidente na madrugada, às três da manhã. Um homem de 26 anos, uma mulher de 25 e uma criança de quatro anos. O homem, chamado William Carter, perdeu a direção e mandou o carro para um caminhão com mercadorias, mas ele não aceitava isso e em sua cabeça havia apenas a garota dos cabelos lilás, que atravessou a rua.
Duas mortes, dois feridos e uma pessoa que, talvez, jamais existiu. O lilás do cabelo dela era o que não saia da cabeça dele.
E o acidente que foi causado, sempre a perturbou durante um ano.
Mas a única pergunta para William era: ela foi real?
E para Emi, a dúvida era: por que com ela, com ele e com aquela família?
Capítulo 01
— Como era ela? — perguntou alguém.
— Eu acho que era linda — foi só o que eu respondi. — Sua feição era de alguém triste, seus belos olhos brilharam mais que as estrelas no céu. Eram lágrimas.
— Foi para o céu que você olhou enquanto dirigia? — Novamente a mesma pergunta, mas de forma diferente.
— Não, as estrelas estavam ao alto, ela à minha frente, na rua… Naquela rua... — Fechei meus olhos por segundos, não querendo terminar de falar.
— Na rua Togoshi Ginza Shotengai. Número dez, na ponte, às três da manhã. — Coloquei minhas mãos aos ouvidos, não querendo ouvir. — Você estava com sua família, sua esposa e sua filha. Juntos, vocês três voltavam da festa de aniversário de uma amiguinha da menina. Sua filha se chamava Saito Haruna, sua esposa Saito Meiko e você é Kim Taehyung. Voltavam juntos em um jipe, tinha uma música tocando e você estava dirigindo. Passaram pela ponte, você olhou sua esposa e segurou em sua mão. Quando voltou a olhar para frente, perdeu a direção, mandou o carro para um caminhão com mercadorias e…
— NÃOOOO!!! — gritei alto, inclinando meu corpo para frente, vendo-a apenas fechar os olhos sem mostrar medo ou algo do tipo, pois, dois homens já estavam atentos aos meus movimentos. — Essa é a versão que VOCÊS querem me fazer acreditar, mas eu, EU, KIM TAEHYUNG, SEI DO QUE HOUVE! EU SEI! EU LEMBRO, EU VI, ERA UMA GAROTA! ELA, ELA SE ENFIOU NA FRENTE DO CARRO, DE REPENTE! Ela não tinha medo nos olhos, ela tinha um olhar neutro igual o seu! Ela queria morrer, mas foi ela que ME MATOU! QUE MATOU AS PESSOAS QUE EU AMAVA!
— Então, acha que ela era que nem eu? Que nem você e aqueles homens ali? Que ela era um ser humano normal e real, acha isso?
— Ela era sim real!
Não precisou nenhum deles me segurar, pois eu mesmo havia voltado para aquele lugar que me trancaram há um ano. Talvez, eu realmente fosse um louco, tivesse visto coisa ou dormido. Eu realmente queria que isso não tivesse passado de apenas um pesadelo e que, quando eu pudesse abrir meus olhos no dia seguinte, sentiria os beijinhos da Meiko ou, simplesmente, acordaria com Haruna pulando na cama.
Por que isso tinha que acontecer justo comigo? Com a minha família? O que eu fiz de tão errado, para Deus ter mandado esse anjo lilás arrancar minha família de mim?
Eu daria tudo para voltar naquele dia e frear o carro ou, simplesmente, dar a minha vida por elas.
Me virei mais um pouco na cama, tentando buscar uma posição confortável. E do lado da escrivaninha, eu peguei a foto que estava comigo desde que tudo aconteceu. Haruna tinha meses de vida na época, e minha esposa estava linda como sempre foi. E foi com essa foto que consegui dormir, pensando e sonhando com elas um sonho bom, o qual eu não queria acordar jamais.
Acordei e percebi que já estava a anoitecer. Olhei o quarto pequeno de forma calma, mas meu coração palpitava e, então, eu me sentei na cama quando vi a silhueta de alguém encostado à porta. A escuridão naquele cômodo e meu olhos ainda sonolentos, não me permitiam ver quem era, mas era uma mulher.
— M-Meiko? — perguntei muito baixo.
— Você chamou por ela. — Fechei minha expressão facial e me encostei na cama. Eu estava relaxado, mas ainda continuei com a mesma expressão. — Sempre sonha com ela, não é? — Fiquei em silêncio olhando qualquer outro lugar do quarto. — Com elas, no caso. Você costuma falar dormindo, sabia?
— Por quê? — perguntei a única coisa que rodava em minha mente. Ela pareceu confusa, pois, tombou a cabeça um pouco para o lado. — Por que, simplesmente, resolveu tratar de mim?
— Você é jovem, não merece ficar preso a uma alucinação, uma loucura, um trauma que ocorreu, por mais doloroso que seja. Eu tenho certeza que você vai ficar bem. — Sua voz era calma.
— Estou bem. Bem mesmo — falei respirando fundo. — Não estou louco.
— Então por que está aqui, senhor Carter?
— Porque eu sei o que presenciei, eu sei o que me fez perder a direção — falo firme, segurando no lençol. — Mas, do que adianta falar? Eu sou um louco, não é mesmo?
Sem dizer nada, ela se retirou do quarto e eu pude voltar a dormir, ou pelo menos tentar.
No Dia Seguinte…
A noite foi curta, mas mais ainda foi o meu sono. E ao meio-dia, deste novo dia, ali estava eu com a psicóloga Naomi à minha frente.
— Na noite do acidente, aonde ia com sua família? — falou calma e delicada.
— Voltava da festa de uma das amiguinhas da minha filha. Estávamos indo para casa — respondi baixo, com o olhar ao chão.
— O que houve, então? Quem você viu na rua?
— A rua era Togoshi Ginza Shotengai. Número dez. Eu perdi o controle — no momento em que falei isso, sua caneta foi ao chão. — Olhava a beleza de minha esposa, ela era tão linda e tinha um sorriso tão belo, era o mesmo que o de Haruna, mas quando me perdi na gargalhada de minha filha, perdi a direção do veículo, elas e a minha vida também.
— Algo mais? — perguntou tentando disfarçar o quão pasma estava.
— Elas morreram. E vou carregar essa culpa pelo resto da minha vida.
— Não foi sua culpa. Jamais será sua culpa — respondeu.
— De quem ela será então, doutora? De Deus? — Respirei fundo.
— É uma pergunta difícil, uma afirmação ainda mais. Perder pessoas é tão difícil e eu sei disso, passei por isso, mas você não perdeu a direção por uma opção. Foi um acidente, um acaso que ocorreu, a mesma coisa que acontece quando uma folha cai de uma árvore. Não é planejado, é apenas… Apenas acontece.
— Minha filhinha irá me perdoar um dia, doutora Naomi? Acha que ela conseguirá perdoar o erro do pai? — Olhei nos olhos da doutora e via-os brilhantes.
— Tenho certeza que não há nada para que ela não possa lhe perdoar, William. Mas, se tem essa dúvida, saiba que sua filha deve lhe amar lá em cima no paraíso e, ao lado de sua esposa, elas cuidam de você lá do céu enquanto vive aqui neste mundo.
Nosso horário acabou e meu trajeto foi para o Jardim de rosas roxas. Por mais que tudo aquilo me assombrava, a cor me trazia paz. Passei minhas mãos pelas pétalas sentindo a maciez delas, enquanto fechava meus olhos, lembrando da pele de minha esposa.
Me ajoelhei ali sobre a terra úmida, lembrando do esbarrão na faculdade, depois do nosso primeiro beijo e da nossa primeira noite de amor. E quando Haruna nasceu… O choro foi a melhor coisa que eu ouvi, quando ela veio pela primeira vez ao mundo.
– Flashback On –
No meio daquela madrugada, alguém me empurrava para um lado e para o outro, e foi assim que fui despertado, dando um salto de susto. Olhei rápido para o meu lado, vendo minha esposa com a mão sobre sua barriga bem grande e sua respiração totalmente acelerada.
— O que houve? — perguntei meio grogue. — Está sentindo dor?! — Olhei o lençol da cama molhado. — Você fez xixi na cama? — Mordo o lábio, tombando a cabeça pro lado.
— William! — Meiko pareceu brava, mas sua expressão era dolorosa — A Haruna vai nascer! Ela quer vir ao mundo, meu amor!
Com aquela frase entrei em pânico, e pronto para levantar da cama como uma pessoa normal — mas desesperada — acabei por cair de cara no chão. Escutei minha esposa rir, mas logo ela gritou de dor.
Tomando coragem e forças, com a ficha caindo aos poucos, corri para pegar a bolsa de roupinhas já pronta e a chave do carro. Desci as escadas apressado e abri a porta, para ir até a garagem e tirar o carro. Mas, ops! Faltava algo...
— NÃO ESQUECE A SUA ESPOSA QUE ESTÁ PARINDO AQUI! — Ouvi Meiko gritar.
Voltei correndo, vendo ela saindo do quarto e apoiando-se entre as paredes. Segurei em sua mão e apenas lembrei de puxar a porta de casa e de entrar no carro para ir a caminho do hospital. Meiko gritava de dor durante todo o trajeto e eu estava agonizando e preocupado pela grande possibilidade de ela parir ali dentro mesmo! Eu não era muito fã de sangue, não.
E, então, eu vi o lugar branco e aberto e estacionei em qualquer lugar. Com a bolsa que estava de lado em minhas costas, apoiei minha esposa em mim e eu entrei no hospital gritando alto: — O NOSSO BEBÊ VAI NASCER! NOS AJUDEM, POR FAVOR!
Foi em questão de segundos e senti tudo em câmera lenta, quando enfermeiras vieram com uma cadeira de rodas e minha esposa sentou-se ali, chorando pela dor insuportável, enquanto a cadeira era direcionada a algum lugar. Eu apenas segurava a mão da Meiko, caminhando junto a ela.
Na sala do parto, o médico me deu duas opções: ou ficar, ou sair. E mesmo com muito medo de sangue, eu fiquei ao lado dela, da minha esposa, até, então, ouvir o choro do bebê, junto ao grito de Meiko.
Olhei bem o rostinho de Haruna. Ela chorava alto e agudo, mas eu sorria emocionado, sabendo que aquele chorinho era o seu 'oi' para aquele mundão louco.
Um tempo havia passado e naquele momento, Meiko já estava em um quarto com Haruna nos braços fazendo um leve carinho em seu rosto. Eu estava ao seu lado e senti quando a mãozinha pequenina da minha filha segurou o meu polegar e seus olhos abriram fitando-me.
— Ele é seu papai, meu amor! Ele é seu herói, sabia? — Meiko falava doce. — Ele sempre irá ficar ao nosso lado, cuidar e nos amar.
– Flashback Off –
Segurei firme a rosa, esmagando-a em meus dedos enquanto chorava alto, mas meu rosto não estava molhado apenas pelas lágrimas de dor e sim pela chuva, que começava a engrossar naquele começo de tarde.
— Eu sinto muito… EU SINTO MUITO! EU SINTO… Muito… Por favor me… perdoem… Me perdoa por não ter sido um bom herói… ou um bom marido…
Meu corpo ficou lento e eu respirei fundo tentando puxar o ar, mas ele parecia querer escapar de mim. Eu não queria lutar contra mais nada, eu apenas queria desistir, mas se eu desistisse, elas iriam me julgar lá de cima? Iriam ficar bravas e brigariam comigo?
Eu só quero me juntar a vocês.
Algum tempo depois…
Dei um passo para fora, para a minha liberdade. Tudo era diferente: as árvores, os sons, até o próprio ar e os raios solares.
Eu respirei fundo, aspirando aquele ar completamente puro, com força. Abri meus olhos, vendo o mundo em si: carros, semáforos, pássaros e pessoas.
Olhei para trás e vi a doutora Naomi com um sorriso fraco e de braços cruzados. Os homens, que me colocavam antes nas camisas de força, tinham agora um sorriso aberto e feliz.
E, então, eu dei o primeiro passo para o começo da minha nova liberdade.
Comigo havia uma bolsa de costas, em minha mão direita havia uma sacola branca com um lanche, e na mão esquerda havia flores. Eu já tinha gastado todos os meus ienes com a viagem para Tokyo, onde minha família estava enterrada.
Adentrei o cemitério e o sol já descia às montanhas. Não demorei para achar os dois túmulos juntos e me sentei ali em estilo indiozinho ao meio das duas, querendo pelo menos sentir um pouco da presença delas.
Os lírios que eu tinha comprado eram divididos entre o branco e o rosa e coloquei metade junto às duas. Me deitei ali sem me importar com nada ou ninguém e fechei meus olhos. Com um lírio em mãos, coloquei sobre um dos meus olhos, fechando-os, e nem vi quando eu adormeci ali mesmo.
Senti alguém me chacoalhando e também me chamando, e quando notei que isso não era apenas um sonho, eu me despertei em um pulo, me virando para trás assustado.
— Doutora Naomi? — Eu estava confuso, dessa vez, a mulher não tinha mais um jaleco branco e sim uma roupa formal. — Me seguiu até aqui?
— Primeiro: me chame apenas de Naomi, você não é mais meu paciente para ter toda essa formalidade — falou e sorriu para mim. — É uma regra seguir todos os pacientes, logo após que eles saem do tratamento, pelo menos por um dia.
— Aonde eu posso ver essa nova regra existente? — Franzi o cenho.
— Hm… Vou te contar um segredo. — Aproximou-se e sorriu. — Essa regra, por enquanto, só é seguida por mim. — Eu ri negando com a cabeça, enquanto ela pisca. Abaixei meu olhar e vi o túmulo. — Então é aqui que elas estão?
— Não — respondei e Naomi me fitou. — Elas estão aqui comigo, no meu coração, na minha alma.
— Já passou por sua cabeça tornar-se um poeta? — Soltei uma risada sem humor. — É sério, retratar em versos tudo o que sente ou o que vive, tudo que guarda em seu coração, amor, dor ou paixão.
— Já pensou em se tornar poeta? — indaguei vendo ela rir e negar com a cabeça. — O que realmente quis conferir, doutora?
— Filho, você tem algum lugar para ir? — ela indagou e eu fechei meus olhos, respirando fundo. — Pelo que você disse, era o único estrangeiro aqui, da sua família. Você só tinha a família da… Meiko — ela falava com cautela. E, então, neguei com a cabeça. — Gostaria de passar um tempo em minha casa, até achar um refúgio melhor?
— Eu realmente não quero incomodar, doutora. Além do mais, seu marido não vai aceitar isso tão bem assim. Vai parecer estranho, bem estranho. — Segui negando com a cabeça, apoiando ao túmulo de Haruna.
—Não tenho marido, meu filho. — Ela riu cruzando os braços. — Não vai ser incômodo nenhum.
— A senhora mora sozinha? — Me levantei finalmente, começando a caminhar em sua companhia para a saída do cemitério.
A pouca luz vinha dos refletores naquele momento, e a senhora ao meu lado riu e falou: — Você vai ser bem-vindo na minha humilde casa, não irei me importar. E bom, eu não moro sozinha, moro com minha filha.
Paramos de frente com o cemitério e a doutora estava em minha frente esperando minha resposta, com um sorriso pequeno nos lábios.
— Eu aceito, senhora. Mas lhe digo, será temporário — respondi e em instantes seu sorriso aumentou. — Apenas até eu conseguir dinheiro o suficiente para alugar uma casa para mim. Aliás, como se chama sua filha? Ela é pequena?
— Não, não. — Sorriu fraco dessa vez. — Ela se chama Emi, e bom... Ela tem 22 anos.
Assenti e chegamos ao carro simples da doutora. E, a partir daquele momento, eu fui para um novo começo, guiado pela doutora Naomi.
Continua?
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